Paredes brancas

Há qualquer coisa no final de Agosto que ciclicamente me atira para espaços desertos e monótonos. Recordo-me quando, na já longínqua adolescência, estive a trabalhar durante o mês de Agosto. As primeiras duas semanas foram fantásticas, a trabalhar num parque de campismo em que, por ser a única pessoa que dominava perfeitamente o Inglês, dava por mim a dialogar com Ingleses, Neo-zelandeses, Holandeses… Nas duas semanas seguintes fui atirado para uma exposição de pintura nas Termas. Basicamente tinha que guardar meia dúzia de quadros desinteressantes durante várias horas, penso que entre as 19 e as 23 ou 24. Já conheci várias e diversas formas da palavra “monotonia” mas acreditem que aquelas duas semanas coroam qualquer relato sobre secas monumentais. A começar pela hora – tinha que jantar a uma hora surreal no Verão para chegar ao meu posto de trabalho. Uma vez lá tinha geralmente 2 horas de deserto total. Não havia ninguém a visitar a dita exposição na hora do jantar. No verão. Portanto tentei ler. Mas a luz era escassa, e usada para iluminar as pinturas. Não conseguia ler. Experimentei ouvir música. Rapidamente se esgotava o reportório musical (isto na altura era walkman e cassetes claro!). Então caminhava, caminhava muito, de um lado para o outro. A maior animação era aparecer alguém a perguntar pelos quadros para eu lhes poder dizer “têm aqui um desdobrável”.

Agora dou por mim no edifício de uma universidade com longos corredores brancos, cheios de gabinetes, desertos. Há salas, anfiteatros… Tudo deserto. Completamente deserto não claro; ouvem-se sempre vozes ao longe – os corredores são longos e estreitos portanto transportam bem o som deturpando a origem do mesmo. Ou seja, sei que não estou sozinho mas não sei bem onde estão os meus companheiros. Colegas de colega, seguranças, funcionários da limpeza… Eles andam por aqui, eu é que não os vejo. Ao fim de uma semana começa a ser surreal olhar os corredores longos e alvos. Sinto-me num daqueles filmes em que o tempo se expande devido  à solidão das personagens e o espaço físico se vai tornando a própria expressão dessa angústia; loucura no caso do “Shining”. Corredores de hotéis deixaram de ser pacíficos para mim devido a esse filme. Aqui, dada a simetria asséptica do espaço e o ar meio futurista de todo o cenário remetem para o “2001 – odisseia no espaço”. Tudo branco e asséptico. Felizmente não tenho nenhum Hal. Mas estas experiências de solidão monótona aguçam a loucura que há em nós, digo eu. Quem está nos outros gabinetes estará a espiar-me? Serão mesmo pessoas? Ou alienígenas com corpo de gafanhotos [acho que se tem explorado pouco o potencial horrífico do gafanhoto]?

Esta solidão num espaço monótono tem o seu quê de inebriante. Faz-me pensar nos monges orientais que passam os dias nas suas tarefas e meditações sempre no mesmo espaço, muitas vezes austero e despojado. É como se a repetição e monotonia dada aos sentidos libertasse a consciência para voos mais altos; voos marcados pelo desprendimento. Abstracção feita não de ânsia ou necessidade de evasão (tão comum na nossa era) mas de serenidade, de despojamento de si mesmo… E o que fica depois de tanta monotonia e repetitividade é algo belo, decerto, um estado de serenidade, de calma despojada…

Uma vez vi o firmamento como um gafanhoto com asas de borboleta – como um ser feio e imperfeito mas capaz de voar, de flutuar até uma existência mais serena e bela…

A solidão de estar com alguém

Há uma nova solidão que vem nascendo em mim. Conheço desde há muito tempo a solidão de estar só, de me sentir único e diferente de todos os outros. Recordo uma frase de um poema de Edgar Allan Poe que resume bem parte da minha vida subjectiva, da vida interior que todos temos sem nunca conseguir partilhar plenamente com alguém – and all I loved, I loved alone.

Parecem-me profundamente distantes esses tempos. Aos poucos a minha vida interior foi extravasando para o exterior, ganhando asas, apareceu à luz, mostrou-se aos outros. E a solidão de ser diferente transformou-se na comunhão com os outros – com o Outro indefinido e abstracto, com aqueles que são iguais a nós sendo diferentes, com os quais vamos partilhando o que sentimos, o que nos impressiona a alma.

Mas agora surge uma nova solidão, uma nova forma suave de me sentir só. É a solidão de me sentir afastado daquela que me completa, do meu amor, é sentir que me falta metade do raciocínio, metade da emoção, metade da cor, metade do riso. E ao mesmo tempo é como se tivesse descoberto toda uma nova dimensão do ser, a dimensão de ser a dois tão profundamente que mesmo sozinho me sinto múltiplo, dúplice, cúmplice, impregnado do odor metafísico de uma outra alma que em mim se entranhou – profundamente, de tal forma que já não distingo onde acabo e começo, onde sou masculino e onde sou feminino… E ao estar sozinho já não estou realmente só, e ao mesmo tempo ao estar sozinho já não me sinto totalmente completo.

Ando com a cabeça cheia de mar

Tenho andado a sonhar com o mar todas as noites. E todas as manhãs acordo com a cabeça cheia de mar, cheia da vastidão e do silêncio marulhado em que passei a noite. O mar embala-me, leva-me a um estado de torpor belo e sem forma – os pensamentos passam a ser como as ondas, a ir e a vir no constante fluxo do devir, o mundo fica (des) feito em espuma e o infinito parece abrir-se ante os meus olhos. E fico ali assim, só a olhar sem a cabeça fixa, a deixar que a brisa fresca e os salpicos das ondas me façam voar, que aquele corpo maciço de água me preencha o vazio – o vazio que o próprio mar induz…

Mas não tenho sonhado com o Atlântico, revolto e em marés constantes. Não. É o calmo e azul Mediterrâneo que me entra pela cabeça noite após noite, em que flutuo e ondulo enquanto o meu corpo jaz inerte na cama, entre o meu amor e a princesa felina que reina lá em casa. Às vezes estou numa casa sobre o mar, que quase entra pelas quatro paredes. Outras, vagueio pelas ondas num pequeno barco. Mas é sempre para o muito longe que lanço o olhar, é sempre com o ondular constante e relaxante que fico durante o dia. Por vezes há pessoas em meu redor, outras estou simplesmente sozinho.

Depois de passar um dia a andar de barco aquele ondular constante ficou em mim. Há experiências assim, que se entranham em nós e nos impressionam a alma. Faz-me pensar na ideia das reminiscências do espírito – que há algo do que impressiona a nossa alma que ecoa nas nossas profundezas, que nos é familiar, que vem do passado, de lá de trás. E não é necessário pensar esta questão como ‘sobrenatural’; há suficiente explicação para esse fenómeno das reminiscências nos conceitos de arquétipo Jungiano ou na ideia de que o ADN não armazena apenas informação genética mas também memórias ancestrais.

Seja como for, ando com a cabeça cheia de mar. Cheia da imagem de mar, da imagem da vastidão ondulante, do hipnótico e suave vaivém das ondas… Há uma qualidade de abstracção pela repetição nesta imagem, na medida em que a mente vai-se evadindo da realidade a partir da repetição dos estímulos… Evade-se sem lhe fugir, abstrai-se sem a perder dos sentidos. À realidade. É assim que flutuo pelos dias do fim de Agosto, num edifício quase deserto, com o corpo aqui mas a cabeça no mar. Zen. Muito zen.

[Escrito em Setembro de 2009, após uma semana em Malta]

Os olhos vazios de Budapeste

Encontrei a alma da Hungria nuns olhos esvaziados:
O sentir de um povo herdeiro de tanta luta pela determinação

O silêncio de angústia e de orgulho, de alegria sincera e unida.

Tudo isto encontrei num jardim frio de Outono
Numa expressão de bronze impassível

Numa terra que apesar de longínqua me soou familiar.

Porque o peso de existir, de ser nação e povo existe em todos nós
E a Hungria como Portugal resistiu, sobreviveu como terra de muitos povos,

Carregando as cicatrizes do passado bem junto à força da determinação.

(E nesse sentido não consigo imaginar o peso de ver a pátria, o povo, a terra aprisionados, conquistados, vilipendiados por outras pessoas, outras nações. Tibete, Palestina, Iraque e muitos outros - esperemos que algum dia rimem com liberdade e auto-determinação…).

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Espírito nómada

Sou um espírito nómada, um andarilho do vento. Na impossibilidade de ser um nómada físico, até porque não sei se gostaria de o ser, vou sendo um nómada nos interstícios existenciais que a isso se proporcionam: sou um nómada das sensações, de emoções, de relações, de interesses e ideias.

O que ontem me entusiasmava talvez amanhã não me diga muito; o que era característico em mim pode deixar de o ser. Não é frivolidade nem indefinição – pelo contrário, aquilo que quero hoje quero-o com muita determinação e autenticidade. Até porque o nomadismo, físico ou o mental, é marcado por um sentido de ciclicidade, de retorno cíclico a um ponto geográfico, a uma experiência e o encontro periódico com elementos familiares, pessoas, objectos, animais… O nómada está sempre a mudar, mas a mudar devagar, tão devagar que por vezes nem ele mesmo nota. A mudar como os locais que visita, por onde passa, lenta mas inexoravelmente.

Atraem-me as paisagens desérticas, abrangentes, aquelas que alguns nómadas ainda percorrem continuamente. A minha alma espraia-se nessas paisagens sem nunca ter ido a nenhuma delas, lança-se ao largo de planícies e planaltos, de montanhas e desertos… Deambulante. Divagando. Gosto de deambular, divagar, percorrer sem ficar; sou um espírito livre que precisa de voar, de ir. E depois voltar, regressar, sempre regressar ao que me é familiar, sempre diferente desde o último regresso…

Ser nómada não é deambular sem destino ou rumo. Ser nómada é percorrer espaços abertos com a sensação de liberdade. Ser nómada é não ter um espaço nosso, é pertencer a todos os espaços que percorremos, preenchendo-os temporariamente, sem lá permanecer por demasiado tempo.Algum tempo atrás alguém elogiava o esquecimento; ser nómada também é esquecer temporariamente. E re-encontrar o mundo de novo, sempre igual, sempre diferente… Estar nos mesmos sítios algum tempo depois, mas diferente, sempre com um olhar ligeiramente diferente…

Gosto de muitas coisas do sedentarismo. Algumas regularidades, algumas rotinas. Hábitos. E pessoas, sobretudo pessoas. E alguns locais. Mas gosto de poder mover-me livremente entre diferentes contextos de vida, várias cidades, uns dias ser um cinéfilo e outros um adepto da culinária via internet.Ser um intelectual de um tema qualquer e uns dias depois beber cerveja e comer tremoços a ver futebol, gritando como um néscio (não sei bem o que é um néscio, mas sinto-me como tal quando lanço invectivas a uma televisão nessas ocasiões). Porque bem cá no fundo sou um nómada de espírito, tentando apreciar o fluir das experiências, apreciar as pessoas, as situações, os momentos que comigo vêm ter, apreciá-las tal como são, intensamente e com a noção de que tudo passa…

A ilha dos mortos

Ontem à noite sonhei que estava na “ilha dos mortos”, o quadro de Arnold Bocklin. Esse quadro já exerceu um fascínio encantador sobre mim, como a serpente a dançar ao som da flauta. Olhava para ele divagando, quase como se me visse a passear por aquela ilha estreita e desolada…“A ilha dos mortos” é um título (e um quadro) enigmático. A ilha está deserta. E vê-se uma barcaça, com uma figura branca de pé com o que parece ser um caixão e alguém rema. Confesso que as figuras não me cativam muito; fascina-me a ilha, aquelas árvores esguias e elegantes, as construções incrustadas na pedra, fazendo lembrar Petra, imaginava-me caminhar por ali, como se houvesse pátios e alamedas no que parece ser um espaço exíguo…

No meu sonho estava, como habitualmente, acompanhado pela minha companhia favorita, o meu amor. Alguém nos dizia, não recordo quem, que aquilo era São Tomé e Príncipe. No entanto eu via árvores frondosas a agitarem-se, um vento gelado a uivar por entre elas, o mar revolto e agitado e sentia que estava numa daquelas ilhas do Norte, perto da Irlanda ou de Gales… um daqueles paradoxos dos sonhos…

E estávamos dentro duma casa velha, degradada, com a madeira escurecida pela humidade perene, o vento a vaguear lá dentro, vindo das inúmeras frestas na madeira e das janelas mal vedadas… A minha companheira de sonhos começou a perscrutar as salas grandes e parcamente mobiladas, com a curiosidade que tanto tem nos sonhos como fora deles. Eu encontrei uma pessoa idosa, sentada numa cadeira de baloiço. Desgrenhada, sozinha, com o olhar perdido no vazio. Falei-lhe. A voz saiu-lhe trémula, desigual. Poucas coisas dizia com nexo, mas percebia-se a solidão, o abandono na sua voz.

Acordei com uma sensação estranha. Não foi desagradável; foi antes uma sensação de algum vazio e desolação. Mas não duma forma negativa. Era algo calmo e flutuante. Durou pouco, só até encontrar as primeiras pessoas do dia e mergulhar, normalmente, no trabalho. Só ao fim do dia me lembrei do quadro de Bocklin. E de como há estados em vida que se aproximam à morte; porque a morte não é o fim do corpo. É o esquecimento. É a falta da partilha do calor do corpo ou da voz do outro.
E nesse sentido há pessoas que em vida são, infelizmente, esquecidas, como a idosa do meu sonho. E há aquelas que mesmo mortas sobrevivem em nós. Nem que seja na memória de um olhar, de um sorriso.
No meu sonho trouxemos a idosa connosco. Para fora daquela ilha linda mas feita de esquecimento e solidão…

Dedicado a António José, 1919-2002.


(A ilha dos mortos, Arnold Bocklin, 1880)

Aceitar, guardar e perder

Há uma ideia ocidentalizada, importada do budismo zen, que diz que o sofrimento advém de não aceitarmos precisamente que nada controlamos. Porque queremos guardar os bons momentos como tesouros e esquecer os maus momentos rapidamente. E o que muitas vezes acontece é o contrário; o que tentamos guardar foge-nos e o que queremos esquecer atormenta-nos, por vezes de formas camufladas. Porque realmente nada controlamos e a vida é como um rio, que flui continuamente, passando de igual forma nos bons momentos como nos maus.Aceitar. Mas o que é aceitar, o que raio temos que aceitar? É muito simples de dizer: a única coisa que nos resta é aceitar que nada controlamos no mundo ao nosso redor, nas nossas vidas, em nós mesmos. Os pensamentos, os sentimentos, as experiências, as memórias, as conversas, as pessoas que conhecemos, as alegrias, as tristezas da nossa vida, todas passam, todas fluem, sem que as possamos controlar. Aceitar é não guardar nada, não esperar nada, não querer nada. E acima de tudo não julgar. Não julgar o que nos acontece, os outros ou a nós mesmos. Aceitar é viver o presente como uma dádiva; porque é a única coisa que temos. O passado e o futuro existem apenas como horizontes do presente, são o Este e o Oeste do momento presente, o enquadramento da nossa vida. Não posso (nem quero!) esquecer o meu passado; mas posso aceita-lo. Abraça-lo, emocionado, como a um velho amigo, daqueles que nos pregam partidas pouco simpáticas mas que também nos dão momentos de alegria. Enfim, como a um amigo que conhecemos há muito tempo… E o futuro, bem, o futuro é aquela promessa de muita coisa. Mas estes horizontes são apenas isso, coisas longínquas. O que interessa é o agora, o presente; se alguma realidade existe é o presente, nada mais.
Quase todas as religiões pregam a aceitação do que nos acontece, explicando os eventos de forma a tentar confortar quem sai prejudicado deles. É um bálsamo; aceitar o que nos acontece não carece de explicação. Podemos tentar explicar 1001 vezes porque aconteceu isto ou aquilo, mas o importante é aceita-lo. Aceitar para ultrapassar. Aceitar para estar livre. Só estando em paz com o passado e sem demasiadas expectativas em relação ao futuro podemos realmente aproveitar o presente, viver o que temos pela frente. Sem pensar se é bom ou mau, se é o que queríamos ou não. Sorvendo a vida. Como diz um ditado chinês “se um problema tem solução não é necessário preocuparmos-nos com ele. Se não tem solução também não vale a pena pensar no que não tem solução” ou algo do género.
O que importa é aproveitar o que valorizamos e é bom na nossa vida. A angústia vem da insatisfação, de se querer mais do passado, do presente ou do futuro. A satisfação é viver o presente sem mais nada. Aspirar o ar profundamente, abraçar quem amamos, sorrir ante a adversidade, sabendo que tudo passa… “Também isto vai passar”… Seja bom ou mau, tudo vai passar…

(e se a ideia de que este momento já passou me entristece, o coração enche-se de alegria por ter acontecido…)

O Amor

Convenci-me recentemente de que o amor é a emoção que medeia a nossa relação com o mundo. Ou a falta dele. Ou a sua procura. A nós, seres humanos, conscientes de si mesmos, conscientes do outro, necessitados de nos sentirmos amados, acarinhados, reconhecidos.
Ia a caminhar pela rua, num destes dias cinzentos e aborrecidos, quando essa ideia se revelou, se desnudou ante mim. Não, não quero fazer grandes teorias sobre o assunto. Não quero teorizar, meditar ou filosofar sobre essa ideia; apenas quero senti-la a espalhar-se pelo corpo, tomando conta de mim. Quero que as minhas recordações se metamorfoseiem para acomodar esta ideia de que o amor é o cerne das nossas relações com os outros; quero olhar para a minha vida procurando-o nas frestas das memórias, no vão de olhares perdidos, nos cruzamentos de palavras soltas, por todo o lado.
Bem sei que há muita miséria no mundo. Não a posso resolver. Nem me parece que possa contribuir muito para o fazer. No entanto, de alguma forma, gosto de sentir que a minha satisfação com a vida, o meu caminho de bem-estar e harmonia se espraia por aí, levada pelo vento, como uma vibração, que possa ser útil a alguém. Sou um narcisista, é verdade. E no entanto apetece-me espalhar esta boa nova, que muitos outros descobriram antes de mim (acho que se devem espalhar as coisas boas, mesmo que não sejam novas): deixem que seja o amor a lente com que olham para o mundo, para os outros em nosso redor.
O amor tem muitas formas, manifesta-se em muitos estados: a ternura, a amizade, o bem-estar, a paixão. Amor como bem-estar por nós próprios, como auto-satisfação pelo que somos, pelo que conseguimos ultrapassar, por tudo de bom, mesmo que seja pouco, que conseguimos para a nossa vida. Amor fraterno pelos demais, pelos amigos que nos aquecem o coração ao longo do tempo, que nos dão momentos de bem-estar, de partilha, de crescimento, de afecto sincero e afável. Amor difuso por quem não conhecemos e passa por nós, na forma mais recatada de um sorriso ocasional, a amabilidade circunstancial, disponibilidade para ajudar, a simpatia genuína. Amor profundo pelas pessoas especiais, as pessoas que nos vão conhecendo intimamente, que nos ajudam quando precisamos de uma mão de apoio, com quem vamos partilhando a vida, as pessoas que nos fazem sentir muito bem como somos, sem necessidade de nos explicarmos ou fingirmos um papel de circunstância.
Não me interessa definir o que é o amor. Intrinsecamente, sem palavras, sabemos o que é. E sabemos quando o temos e quando não o temos. Eu tenho-o. E consigo ver alturas da minha vida em que não o tive. E começo a perceber como as emoções negativas se relacionam com a falta ou a busca de amor; o medo de perder o que amamos, a inveja de quem o encontrou, a revolta por amor que nos foi negado. E por aí fora. É a essas emoções que temos que cortar as raízes, fazê-las mirrar para que o amor possa florescer livremente no jardim das delícias que é o nosso eu interior.
Tal como disse em relação à felicidade reafirmo-o em relação ao amor; o amor vai-se descobrindo em pequenas coisas, em momentos simples de partilha, no bem-estar de estar com os outros e com nós mesmos. Não sei se o amor e a felicidade são esses pequenos momentos, se são a soma de todos esses momentos ou são algo que se extrai, tal como o azeite se extrai da azeitona, desses momentos, algo que deriva deles mas que tem algo qualitativamente diferente deles. Mas sinceramente também não me interessa. Como diria Alberto Caeiro, pensar afasta-nos de nós mesmos e do mundo. Só se sentirmos as coisas, as ocasiões e os outros sem pensar muito nelas, aproveitando o que de bom nos aparece, é que realmente vivemos. Caso contrário sonhamos, ansiamos, sofremos ou recordamos. Mas esquecemos-nos de viver.

(o amor é encontrar um par de pés que se queiram refrescar junto aos nossos num dia de calor…)

O nada da alma, cheio de tanta coisa


É a minha alma aquela flor que desponta,
Aquela árvore que recrudesce com o calor da renovação,
Os lagos e os trilhos que me percorrem,
Que me enchem de vazios,

Onde a criança esquecida do mundo,
Salta e brinca, livre,

Não tendo senão o espaço desse jardim de sonhos,
Do doce e sereno nada que é afinal a vida…

Lúcia Nogueira

VÃO VER A EXPOSIÇÃO DA LÚCIA NOGUEIRA EM SERRALVES,
ATÉ DIA 27 DE JANEIRO.
Se forem até às 2 da tarde de Domingo não pagam bilhete.
Francamente não percebo nada de arte contemporânea. Mas tenho sensibilidade para apreciar a obra de um artista e a exposição da Lúcia Nogueira despertou essa sensibilidade. Há por ali sofrimento transformado em arte, estilhaços da alma que se transformaram em estilhaços de arte, a arte estilhaçada. Há objectos alegres que se transformaram em algo triste, há espaços vazios que se tentam encher com rostos, objectos, corpos, há espaços enclausurados e espaços abertos a que não conseguimos ter acesso. Há, acima de tudo, metáforas, sensações, um discorrer livre, ora atormentado ora divagante.

http://www.serralves.com/actividades/detalhes.php?id=981